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    Meteorologia

    Em Brasília não se pode fazer previsão do tempo. Os preços das sombrinhas e guarda-chuvas mudam dependendo do humor de São Pedro. Ontem pela manhã custavam cinco reais, pela tarde não se comprava por menos que dez. O fenômeno se inverteu hoje e quem não comprou proteção para a chuva grossa logo cedo acabou gastando mais no fim do dia. Instabilidade total lá fora e aqui dentro também.

    Indispensável dizer que a mudança faz parte de mim e até gosto dessa tempo que hora é chuva, hora é sol, hora é branco, hora é cinza. Quando mergulho n'A Caverna não sei do clima, mas sinto mudanças, tudo em transformação, todo o tempo! A matéria que me consumiu nos últimos dois dias, por exemplo, foi literalmente descartada, mas houve tanta produção que ela não fez falta. É isso que me faz amar o Jornalismo! Me encanto com tantas possibilidades, tantos desafios que precisam ser superados, com a necessidade de ser tradicional inovando, de renovar o que havia sem perder credibilidade.  Ando me encontrando até mesmo nas atividades de assessoria.

    Nesses turnos de imprecisão mergulhei fundo no computador, ele foi meu guarda-chuva sólido para as tempestades que costumo criar em mim mesma. As nuvens foram se formando e por alguns dias eu fui apenas céu escuro, depois raios e trovoadas e ontem, graças a uma presença muito querida, me dispersei numa garoa serrana. Nada melhor do que encontrar quem a gente ama -- amor de verdade, de amigo-irmão -- e conversar sobre o que importa na vida,  rir de si mesmo, das voltas que a vida nos dá e, principalmente, olhar para o futuro, ver horizontes, esquecer do umbigo...

    Hoje acordei cinza-claro, alguns raiozinhos ameaçaram escapar, brincaram por alguns segundos e por instantes pensei ver um arco-íris, mas as nuvens escuras voltaram e continuam ameaçando chover. Às vezes elas são saudade, às vezes egoísmo, às vezes tristeza mesmo e eu fico aqui, desejando chover, chover muito, pingos grossos, sonoros, ferozes, contínuos, serenos... e depois de toda água derramada olhar para um sol-sorriso que brota de dentro e ilumina tudo, faz esquecer o medo dos raios, faz esquecer o rigor do trovão, faz esquecer o calor sufocante e torna muito mais divertido pular nas poças que restaram na rua.



    Escrito por Aninha Santos às 00h00
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    Prêmio Herzog de Jornalismo - Categoria Internet

    DITADURA MILITAR 

    Uma missa para o torturador 

    Celebração dos 30 anos da morte do delegado Sérgio Fleury, torturador da ditadura civil-militar, reúne cerca de 70 pessoas em São Paulo 

    Por Lúcia Rodrigues e Tatiana Merlino 

    Uma coroa de flores com o formato e as cores da bandeira nacional enfeita o altar da igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro do Sumaré, capital paulista. Penduradas nela, pequenas faixas com os dizeres, "ordem e progresso" e "herói nacional". Ao centro, a foto do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos maiores torturadores da ditadura civil-militar (1964-1985), morto há 30 anos. 

    Cerca de 70 pessoas, entre parentes, amigos, delegados aposentados, representantes da TFP (Tradição, Família e Propriedade) e agentes do serviço reservado da polícia celebraram na noite de quarta-feira (6), o aniversário de três décadas de falecimento de Fleury. Entre eles, estava o delegado Carlos Alberto Augusto, conhecido como Carlinhos Metralha. Augusto, torturador temido nos porões do regime, integrou a equipe de Fleury e convocou a missa pela internet: "familiares, amigos, ex-policiais do DOPS e informantes contam com sua presença à missa". 

    Um dos policiais do serviço reservado trajava calça jeans, jaqueta e boné, lembrava o Lula sindicalista do ABC, com sua barba grande. Não fosse pelos abraços calorosos que distribuía entre os presentes, poderia imaginar tratar-se de um militante da esquerda que sofreu na pele as agruras da ditadura. Ciro Moura, ex-candidato a prefeito, nas últimas eleições, pelo PTC (Partido Trabalhista Cristão), que herdou o número da legenda de Collor, foi o único político a comparecer à cerimônia. 

    Antes do início da celebração, do lado de fora da igreja, velhos amigos conversavam animadamente, enquanto era distribuído um panfleto com a foto do homenageado e os seguintes dizeres: "Sua morte deixou em nós uma lacuna impreenchível. Só o tempo poderá atenuar a sua perda irreparável para a sociedade brasileira. Dr. Fleury ficará na memória de todos, a sua inesquecível figura que tanto bem semeou. À sua passagem, sempre cumprindo ordens superiores e defendendo a sociedade". Entre os carros luxuosos que entravam no estacionamento, havia adesivos colados. Em um se lia referência ao General Heleno, comandante militar da Amazônia. Outros adesivos faziam alusões à defesa do porte de armas. 

    A igreja Nossa Senhora de Fátima está próxima da sede da Opus Dei, localizada na avenida Alfonso Bovero, e do Centro de Estudos Universitários do Sumaré, mantido pela instituição.


    Os presentes à missa do "herói nacional", a maioria homens, vestiam terno e tinham cabelos brancos. Alguns mais novos, de terno e gravata, usavam broches com a bandeira do Brasil. As poucas mulheres, de cabelos tingidos de loiro ou ruivo, maquiagem pesada, salto alto, meia calça, terninho. 

    A missa foi celebrada por Frei Yves Terral, que, durante a homilia, afirmou que "Fleury teve, há 30 anos, uma feliz ressurreição" e que "estamos reunidos hoje para lembrar sua memória, e não deixar a história morrer".

    Durante a cerimônia, que teve início às 19 horas e durou 28 minutos e 45 segundos, o religioso disse frases como: "nós amamos Fleury", "Deus ama Fleury" e "Estamos reunidos para lembrar o ideal do jovem Fleury, lembrar que ele tinha um ideal". Na hora do Pai Nosso, Frei Yves pediu aos presentes que orassem "em nome de Jesus e Fleury". 

    Yves Terral é um franciscano, da ordem co-irmã a dos freis dominicanos, Tito, Fernando e Ivo barbaramente torturados pelo delegado Fleury. O religioso, que em entrevista disse ser amigo de policiais militares, também celebrou a missa de sétimo dia do coronel da PM Ubiratan Guimarães, assassinado em setembro de 2006. Ubiratan foi o responsável pela invasão da PM paulista ao Complexo Penitenciário do Carandiru, em 1992, que resultou na morte de 111 presos.


    O delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury morreu em 1º de maio de 1979, na Ilhabela, litoral norte paulista, de forma misteriosa. Pouco depois de comprar um iate, supostamente caiu no mar e se afogou ao saltar de uma embarcação para a sua. As autoridades policiais da época mandaram que seu corpo fosse enterrado sem ser submetido a necropsia. Fleury estava à frente do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), um dos mais temidos órgãos da repressão, e era o responsável por assassinatos e torturas que ocorriam no local. 

    O delegado ganhou "notoriedade" quando chefiou o Esquadrão da Morte, milícia clandestina formada por policiais que coalhava de corpos de supostos bandidos os terrenos baldios da periferia de São Paulo e do Rio de Janeiro. Fleury liderou, ainda, o fuzilamento do guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, na alameda Casa Branca, em São Paulo, em 1969.

     



    Escrito por Aninha Santos às 11h58
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